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TELA DE: Renë Magritte (1898 -1967)



O Caçador de Mentes



Invento
A cada novo momento
Carruagens imaginárias
Transportando pensamentos
Pra muito além deste silêncio.

Deste incomodo silencio
Cujas tetas calejadas
Alimentam multidões infectadas pelo vício
Pelo ócio sobrepujando o riso
Pelo riso sobrepujando o risco
Pelo risco exacerbando o visco.

Tudo isto
Deambulações
De minha alma lasciva
Catarse de minha carne impura
Exorbitando
Meu ser para alem do plano.

Tudo isto
Um longo e fatídico poema
Construindo um jardim de cristais
Plantando azuis
Por entre as estrelas das tuas vísceras.


TELA DE: Renë Magritte (1898 -1967)

Lugar de Amar e Ser Feliz


Dentro das nuvens do meu peito
Estende-se avenidas imaginárias
Que nos levam a um lugar absolutamente perfeito

Conchas e corais
Mar azul
Céu azul
Vinho tinto
Taças e cristais

Orquestra de pássaros poetas
Nos varais sobre figuras brancas de gesso

Um vento morno
A esmo
Um lindo jardim de girassóis

Só o amor sabe andar
Sobre as águas desconhecidas
Desse mar imenso que somos.

 

 

 

Ulisses de abreu 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Tela: William Turner


Tempo de Amar



É tempo de ouvir o canto
Na voz nua da musa,
A musa de feérico efeito
Que a um estilo recusa

A musa da luz divina
Que mais encanta que tece
A moderna teia que ensina
E ao mesmo tempo empobrece

Não vale
A escola que mutila
E deixa o poeta perverso
Criar a antilira!
Criar o antiverso!

Não vale a flor sem cheiro
Fabricado no suor da labuta
Vale a que um sem dinheiro
Num improviso amputa.

Vale simplesmente o amor
Tal e como concebido
O coração de certa flor
Na seta de tal cupido.

 

 Ulisses de Abreu

 

 


Tela: William Turner


Amor de flor III


Estou hoje esquecido,
Como se não soubesse a sua importância...
Como se você não estivesse dentro da minha cabeça
E como se hoje eu fosse um mistério de coisas por debaixo das pedras...,

Estou hoje sumido,
Como se não sentisse a sua ausência...
Como se você não fosse a melhor flor que eu já colhi
E como se eu fosse eu mesmo a flor e o jardim...,

Estou hoje calado,
Como se não ouvisse a sua voz...
Como se você não quisesse me alcançar
E como se eu fosse alguma coisa a mais que somente o que sou...,

Estou hoje pensando em você,
Como se fossemos dois pássaros azuis
Como se você e eu voássemos ao mesmo tempo espaços diferentes
E como se eu fosse você e você fosse...,

Ulisses de Abreu

 


Tela: DE CHIRICO


Lugar de Amar e Ser Feliz


Dentro das nuvens do meu peito
Estendem-se avenidas imaginárias
Que nos levam a um lugar absolutamente perfeito

Conchas e corais
Mar azul
Céu azul
Vinho tinto
Taças e cristais

Orquestra de pássaros poetas
Nos varais sobre figuras brancas de gesso

Um vento morno
A esmo
Um lindo jardim de girassóis

Só o amor sabe andar
Sobre as águas desconhecidas
Desse mar imenso que somos.

Ulisses de Abreu




Tela: DE CHIRICO


Só o tempo realmente escreve

Pudesse eu modificar meus sonhos
Deixá-los sempre em quarentena
Disciplinados e conseqüentes
Prevenindo o imprevisível.

Pudesse eu voar sem minhas asas
Deixá-las ao lado de um velho espelho
Empoeiradas e adormecidas
Voar sem asas um céu inteiro.

Pudesse eu refazer meus passos
Dar-lhes um tom azul vermelho
Dar graça às coisas que não tiveram graça
Conhecer-me onde não existo.

Pudesse eu invadir os pensamentos dela
Ir de galho em galho
Buscando-me
Procurando meus vestígios
Montando-me aos poucos
Crescendo dentro dela
Como ela cresce dentro de mim.

Ulisses de Abreu


Tela: WARHOL


Minha Pequena Estrela


Agora tudo o que se ouvia
Era o Silencio
Em cada centímetro da carne

As mãos manchadas de sangue e sal
Tinham o peso do chumbo
E não mais se moviam

Um fio de vida escorria
Do canto dos olhos ainda abertos
E a cada novo instante
Todas as coisas pareciam estar
De volta onde estiveram antes...

Mas era tão longe o teu espelho
E o tempo que agora abria contagem
Regressiva
Já não mais amanheceria.

Todos vão ficar na memória
Como um retrato ao avesso
Todos,
Menos você minha pequena estrela...

Ulisses de Abreu


Tela: WARHOL


Gente estranha


Temos a mesma carne frágil e infiel
Temos a mesma anatomia
Temos o mesmo olhar cego e cruel
Temos a mesma biografia

Pisamos o mesmo chão
Respiramos o mesmo ar
Bebemos a mesma água
Comemos o mesmo pão

São brancos como eu sou negro
São pobres como eu sou rico
São índios como eu sou brasileiro
São secos como eu sou rio

Assim como eles eu choro
Assim como eles eu sofro
Assim como eles eu sonho
Assim como eles eu morro

E eles se dizem meus amigos
E eles se dizem meus irmãos
E eles dizem vem comigo
E eles nunca dizem não.

Ulisses de Abreu


Tela: Henry Matisse


Uma luz quase violeta

Era uma luz quase violeta
Era azul
Vermelha
E em nada cinzenta

Ninguém notou o seu estranho arco-íris
Ninguém a viu
Só eu que ando olhando
Pras nuvens
Que ando no mundo das nuvens

É que sei dessas coisas fugazes.

Ulisses de Abreu

 


Tela: Henry Matisse


                     Luar Sem Dor (LSD)

Meus olhos muitas vezes sem nenhum arame
observavam o azul puro nos objetos alheios,
quis abrir-lhes as algemas invisíveis e paralisantes que os mantinham inertes.
Esta talvez fosse uma extrema obsessão
a de que todo objeto (gaveta, lápis, cadeira etc) tivesse boca
ou que esperassem como quem não quer nada,
mas atentos a tudo;
a chegada da boca pra por a boca no mundo.

Mundo, aliás, em que não posso fechar os olhos e esquecer de tudo!
Principalmente agora que aprendi a prender minha respiração

E a fingir de muro.

Mas não queira descobri os segredos das coisas muito cedo
precisa do acaso
se por acaso tenha que fugir do fogo cruzado nas terras suburbanas..
Imagina o que seria de nós
perdidos em uma imensidão de dores e serpentes azuis fosforescentes?

Mas
Não tenha medo
Venha cá
tu e tua boca que faremos um pacto de línguas
eu acho que é a hora certa para uma transformação
pode tentar!
não há tempo para fatiar-te em pedaços.

Ulisses de Abreu

 


ULISSES DE ABREU                lissopoeta@negociosearte.com