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Tela de:
O cara do bloco B
Andava sozinho pelas ruas de Belo horizonte. As ruas estavam totalmente desertas. Parecia caminhar por entre um enorme cemitério de edifícios, era um silencio incomum a uma cidade grande. No entanto, passava das dez horas da noite, e era de se esperar que com o aumento desenfreado da violência e da criminalidade em nossa cidade, as pessoas cada vez mais evitassem saírem à noite. Contudo, todas as justificativas iam à medida que eu caminhava, desfazendo-se aos poucos. – Estou subindo a Rua da Bahia, desde a Avenida Afonso Pena e já cruzei varias ruas sem que ao menos um ser humano passasse por mim, nada alem das avenidas desabitadas cruzou o meu caminho ate agora, nem sequer um automóvel passou por mim. Onde será que se meteu aquela gente toda? Talvez o trânsito aqui no centro da cidade tivesse por algum motivo extremo sido interrompido, mas, será que eu fui o único que não se informou a respeito disso? Caminhei mais um pouco e chegando a um barzinho, na esquina da Bahia com São Paulo, maior ainda seria o meu espanto! Havia uma musica tocando, o som vinha de duas caixas acústicas pregadas em cada uma das paredes laterais de um velho bar, era uma musica clássica, Vivaldi, concerto opôs 3/8. - Apesar de não gostar muito de musicas clássicas, essa eu já tinha ouvido varias vezes... É que meu irmão na época em que morávamos no interior de minas, simplesmente, adorava musica clássica, e Vivaldi era um dos seus preferidos, todavia, claro que Mozart, Chopin, Bach e muitos outros também faziam parte da sua coleção de boas musicas, assim como ele mesmo orgulhosamente gostava de chamá-las. Mas deixemos meu irmão de lado que dos que já se foram com certeza essa não é a melhor ora para se falar. Pude notar também que a porta do freezer estava aberta e, que do alto de uma das prateleiras, um líquido vermelho e espesso escorria de uma garrafa que estava tombada e, vinha descendo de prateleira em prateleira ate dá no chão, exatamente, em frente a uma porta que estava trancada e que de certo daria acesso ao interior do bar. Havia também uma maquina registradora dessas do tipo PDV, e como estava aberta pude ver que certa quantia em dinheiro ainda estava no caixa. E isso me chamou a atenção. Porque alguém largaria um bar sozinho? E ainda iria embora tão rápido, tão desesperadamente que se quer se lembrou de recolher o dinheiro do caixa? Essa pergunta e tantas outras passaram pela minha cabeça como se varias pessoas ao mesmo tempo as fizessem. E pela primeira vez naquela noite eu tive medo. Sai do bar e segui em direção a praça da liberdade. Fui logo avistando todas aquelas belíssimas palmeiras imperiais, o chafariz e o coreto, direcionei meus olhos para o palácio do governo onde dava como certa a presença de uma sentinela; mas novamente aquele vazio, não havia ninguém, nem ali, nem por onde eu havia passado e muito menos em qualquer canto daquela praça. Uma estranha sensação de que algo muito ruim estava acontecendo, percorreu o meu corpo e gelou a minha alma. Sentado, num banco da praça, embasbacado, olhando o vazio, o silencio que se estendia pelos quatro cantos daquela fantasmagórica praça, eu, me senti totalmente perdido e, por um segundo pensei em voltar ate aquele barzinho só pra ouvir novamente aquela musica clássica... No entanto, dentro de mim, na parte obscura e confusa do nosso cérebro em que a mente age por si mesma, totalmente alheia a nossa vontade, uma voz me dizia:- se acalma Miguel! Não é agindo assim que você vai conseguir entender o que esta acontecendo, procure se lembra de como tudo começou? Por um instante, pensei ter ouvido um assovio, um apito ou um pássaro talvez, mas há essa hora, estava mais para morcegos. Decidi não mais ficar ali, aquele silencio e todos os pensamentos, estavam me deixando ainda mais confuso. Voltei para o meu apartamento, lá pelo menos o vazio e o silencio eram-me familiar. De volta ao meu apartamento, liguei a televisão, chuviscos apenas, em todas as emissoras apenas chuviscos, tentei então sintonizar uma FM e nada, nada alem de ruídos. Peguei o telefone e estava mudo, então fui ate a janela e gritei! Gritei bem alto, socorro! E os meus gritos ecoaram e se perderam no vazio negro e frio que separava o bloco A do bloco B, sem que ninguém me ouvisse. Nem o sacana do sindico meu vizinho de frente ouviu-me. Por Deus, eu juro como eu desejei naquele momento que aquele velho idiota tivesse aparecido, nem que fosse só pra me mandar calar a boca... Mas o maldito não estava lá, nem ele e nem ninguém, os prédios estavam vazios, nenhum porteiro, nenhum barulho de elevador, nada! Nem uma viva alma pra me dizer um oi que fosse. Coloquei um CD da Janis Joplin pra tocar, era preciso quebrar o silencio, pelo menos o silencio exterior, já que dentro de mim a discussão ia longe. Mas, onde, onde se meteu aquela gente? Cadê o cara do 705, ele nunca se atrasa, trabalha todos os domingos de segurança no hospital das clinicas, e sem se atrasar sequer um minuto as onze horas em ponto, fazia o prédio inteiro ouvir seu pigarro nojento. Nem a Carol, aquela putinha do 905; ela sempre chegava da balada completamente bêbada e há essa hora já estaria estirada na cama, suja, nua, e com as janelas e as pernas abertas, mostrando pra quem quisesse ver aquela coisa podre e fácil que ela trazia entre as pernas. Maldição! Só pode ser coisa do alem, vai ver é isso, eu morri, estou morto! E aqui no mundo dos mortos, cada um tem sua cidade. - É... Mas, uma cidade para cada um, que exagero! Prefiro acreditar que estou sonhando, isso...! Isso mesmo... Estou sonhando e nada disso é real, não demoro eu acordo e tudo voltará ao normal. Lá fora, todas as luzes estavam acesas, a cidade inteira iluminada. Da minha janela dava pra ver o viaduto Santa Teresa todo iluminado, entretanto, nenhum carro o atravessa. Ao fundo, no limite onde os meus olhos assombrados e umedecidos alçavam, uma neblina densa e branca se formava. Voltei para a sala e então pensei na possibilidade de estar só não somente na cidade, como também no mundo. Fiquei perplexo, meus olhos encheram-se de lagrimas e a minha voz desceu pela garganta como um bêbado desce uma escada. Eu não encontrava um único motivo, algo que me fizesse entender essa loucura na qual agora eu habitava. Deitei no chão da sala, estiquei meu corpo tremulo e olhando fixamente para o teto paralisei! E meu mundo, como em um daqueles globos enormes que agente vê nessas pistas de dança, começou a girar e a refletir fragmentos da minha vida por toda parte. Quando foi que eu me perdi? De certo por algum motivo sobrenatural vim parar aqui nesse mundo, que não sei dizer o que é. Mas sei que o vazio em que me encontro, veio num daqueles bondes que de tempos em tempos partem de nossas almas com destino incerto. Cavamos um abismo por dia vivendo essa vida louca, esse frenesi das cidades grandes; e eu me encontro agora na minha mais egoísta existência... Levantei e voltei à janela, lá fora tudo era só silencio, e nada se movia alem das folhas impulsionadas pelo vento. Nem ao menos um cão - mesmo não gostando de cães eu queria ouvir pelo menos um inexpressivo latido de um cachorro vira-latas. Já não sabia o que fazer; andei pela casa como um lobo enjaulado. Abri a geladeira, bebi tudo que encontrei pela frente, menos água e leite, mas, não bebi o suficiente. Um homem se perde muitas vezes na vida, e em grande parte se perde por motivos banais. Eu, sou um retrato vivo da inconseqüência humana, travei batalhas inúteis e sem nenhum propósito honesto ou que não fosse totalmente pessoal. E muitas vezes, criei essas guerras estúpidas dentro das casas onde fui filho, irmão, amigo, namorado, amante ou somente um visitante. Sabia de cor o nome de cada uma daquelas pessoas, só não sabia o quanto era importante saber seus nomes e ser chamado por elas pelo nome. Aqui onde eu moro, nesse prédio onde o silencio e a incerteza agora imperam, sou somente o cara do bloco B, e não me lembro a ultima vez em que fui chamado pelo nome ou na qual chamei alguém pelo nome. Todavia, nunca me senti um homem triste, ou depressivo, muito pelo contrario, cavei a golpes largos esse buraco cinza e solitário em que me encontro agora. E mesmo que não seja a melhor forma de um ser humano viver, é a única que se desenha a frente do homem que vive nas grandes metrópoles. De repente, um vulto negro e pequeno eu vi passar por entre os livros na estante, não me contive fui ver logo o que era. Uma barata! Uma horripilante e asquerosa barata. Pensei: vou matar! No entanto, não matei. Que tolice a minha, achar que poderia me dar a insensatez de matar, sim porque a essa altura, isso seria mesmo uma tremenda de uma idiotice. Éramos apenas eu e aquela barata naquela sala e quem sabe se não éramos somente os dois naquela cidade. Entretanto, eu sabia seu nome, sabia que se chamava barata, e que todos a chamavam assim. Poder chamá-la pelo nome me deu certo conforto. Permaneci ali, inerte, olhando aquele bicho nojento, que, pelo pouco movimento que fazia, parecia tranqüilo. E assim, como um homem a beira da loucura, a beira de um abismo, que de minuto em minuto se surpreendia conversando em pensamento com uma barata. Adormeci. Quando o relógio despertou, saltei da cama num movimento automático e lento. Fui ao banheiro, mijei, lavei o rosto, escovei os dentes e me disse qualquer coisa do tipo: “cara que noite”. Depois me vesti apressado, tomei um café requentado, tranquei a porta e peguei o elevador.
_É só o cara do bloco B, sussurrou o porteiro no ouvido de uma moça clara, de seios fartos e cabelos compridos lisos a me ver passando apressado, acenei com as mãos e com a pressa de chegar logo ao trabalho mal notei que a cidade estava novamente habitada...
Ulisses de Abreu
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 Tela: Henry Matisse
O Duelo das Pipas
Um vento morno balançava as folhas do velho coqueiro que decorava a frente da minha casa. Era um dia perfeito para empinar pipas, e aos poucos as ruas de terra e de sangue, do Capão iam se enchendo de meninos e de pipas, papagaios, cabuchetas e arraias. Entre todos os modelos, a cabucheta era a mais sem graça, era simplesmente uma folha de jornal sem varetas e sem alma voando desengonçada no ar. Bastava dobrar meia folha de jornal em forma de losango, depois juntar duas pontas, fazer um pequeno orifício em cada uma delas, amarrar a linha bem frouxa, formando o que chamávamos de barbela; e, por último, uma pequena rabi ola, uma linha sem cerol, porque ninguém perdia o tempo pra laçar cabuchetas. Na maioria das vezes, eram os meninos pequenos, que tinham entre cinco e sete anos de idade, e algumas meninas que gostavam de empinar as cabuchetas. Enquanto os pequeninos e as princesinhas corriam de um lado para outro tentando laçar o vento com suas pobres cabuchetas, nas ruas estreitas do Capão, eu e uma dezena de outros meninos subíamos as ladeiras de terra buscando um campo de grama batida, que para nós era como se fosse uma pista vôo de onde se decolavam as pipas. Chegando lá, desenrolei cuidadosamente a rabi ola de quase cinco metros da minha pipa azul. Hélio e os outros meninos da minha rua olharam-me com um sorriso debochado. “Olha lá pessoal! O Miguel parece que ta querendo bater o recorde da rabi ola”, falou Helio num tom de pura ironia, e os meninos riram ainda mais debochados. E eu ri também, já que éramos todos amigos. Não demorou muito para que o céu ficasse repleto de pipas, papagaios e arraias. Cada uma mais colorida que a outra: era um balé nos céus e outro na terra. Dar de pico ate chegar bem pertinho do chão, depois empinar, fazer a pipa subir o mais alto que pudesse como se fosse um foguete; e ainda, fazer a manobra perfeita, para laçar a outra pipa e cortar a sua linha e a sua alma com a lâmina certeira do cerol. Quando isso acontecia, arrancavam-se aplausos e gritos eufóricos dos outros garotos, enquanto o infeliz que tivesse a sua pipa derrubada sairia às pressas na esperança de pegá-la de volta. Mas isso quase nunca acontecia, porque os meninos pequenos que ficavam de boca e olhos abertos, vigiando as pipas no céu, sempre chegavam primeiro e depois trocavam as pipas laçadas, por balas, pirulitos, chicletes com os meninos mais velhos que as colecionavam. Eu estava tão feliz, já tinha laçado duas pipas e uma arraia, até que o Sidnei, numa manobra incrível, surpreendeu-me e fez a minha pipa dançar à deriva um balé desengonçado de frustração e despedida e ir caindo até sumir por trás de uma floresta de eucaliptos que ficava há um quilômetro dali. Nessa hora não tem como disfarçar, a decepção é muito grande: ter uma pipa laçada era como ter perdido uma batalha e, por isso, teria que conviver por alguns minutos com a idéia de que era o mais fraco. E ainda tinha que engolir o sorriso prepotente que cobria a metade da cara achatada de nordestino do Sidnei, que, apesar de ser um dos meus melhores amigos, me deixava puto de raiva, porque ele sabia como poucos tirar um sarro. No entanto, não fui atrás daquela pipa. Raras eram as vezes em que eu ia. Pra mim, uma pipa, uma vez derrubada, jamais seria a mesma... Eu acreditava que as pipas tinham sentimentos e, como eu, elas eram muito orgulhosas: uma vez abatidas, derrubadas em pleno vôo pelo fogo inimigo, nunca mais voariam belas e majestosas por aqueles céus onde por algumas horas triunfaram como um destemido pássaro guerreiro... Nas ruas baixas, os meninos pequenos corriam freneticamente por entre os becos, entrando de casa em casa, de quintal em quintal, anunciando que alguma coisa muito grave estaria acontecendo na fronteira sul do Capão. Então, um dos pequenos atravessou o campo correndo aos berros convocando a todos para mais uma batalha. Descemos correndo, gritando como índios palavras de ordem: “oba! vai ter porrada! vão ver o que é bom, ninguém se mete com os meninos do Capão”. Quando chegamos ao campinho de grama rala, cuja dimensão era de mais ou menos uns trinta metros na divisa do Capão com o jardim Ângela, a pivetada já tava toda ouriçada. Na distância de mais ou menos um metro que separava um bando do outro e, pra minha surpresa, o motivo da disputa era a minha pipa azul, que repousava intacta na grama seca e rala daquele campo de tantas batalhas. Os meninos maiores de ambos os lados discutiam quais seriam as regras do duelo. Dificilmente todos os meninos brigavam ao mesmo tempo, quase sempre escolhia um pivete de cada lado, de mesmo porte físico, pra que numa briga decidissem com qual bairro ficaria a pipa. Num primeiro momento, pensei em me esquivar, sair de mansinho sem que ninguém percebesse, evitando assim ser o escolhido. Eu sabia muito bem como eram aquelas brigas, já havia participado de duas até então, tendo ganhado uma e perdido a outra. E quando se perde uma briga dessas, se já não bastasse todas as porradas e a humilhação que lhe impôs o seu adversário, ainda tinha que se enfrentar o terrível e covarde corredor polonês, onde os garotos do seu próprio bairro, formavam duas colunas, posicionados de frente uns para os outros, iniciavam de forma decrescente pelos meninos mais velhos até finalizarem com os meninos pequenos. Eram no mínimo quinze garotos de cada lado, e o perdedor tinha que entrar no corredor do lado dos meninos mais velhos e debaixo de cascudos, pontapés e muita zoação, tentar a todo custo e se possível bem rápido chegar ao outro lado. Lembro-me de ter ficado com a cabeça e o corpo todo doendo por pelo menos uma semana. É bem verdade que alguns garotos perdedores não precisaram enfrentar o corredor polonês, porque saíram do duelo desacordados; todavia, esses garotos carregavam para sempre estampados em suas testas o rótulo impiedoso do fracasso. “Vai lá Miguel, enche aquele pivete de porrada e recupera a sua pipa”, falou-me Hugo, um garoto de mais ou menos 17 anos de idade, forte como um touro e que comandava os meninos mais velhos do bairro. Talvez, eu deveria mesmo ter ido embora, era óbvio que eu seria lembrando, sendo eu o dono daquela maldita pipa; e agora nada seria forte o bastante pra me livrar daquela imprevisível briga, nem mesmo o fato de eu ter apenas dez anos de idade e de ser apenas uma criança me faria escapar. Em seguida, ora um ora outro, os garotos iam enfiando anéis nos meus dedos, anéis do Batman, de Caveira, do Fantasma, três até quatro em cada dedo; todos conseguidos nas embalagens de chicletes, que era a maior onda entre a garotada. Entretanto, aqueles anéis eram armas poderosas, traziam nos olhos de cada herói uma pedrinha de cristal muito bem afiada. Bastava uma única porrada bem dada na cara, pra se arrancar sangue. Senti que não haveria mais jeito de escapar. Era eu que novamente estaria naquele ringue improvisado, feito sob medida para o bom divertimento de todos aqueles garotos que estavam de fora da briga. Contudo, eu estaria no centro daquele ringue e, pela terceira vez, poria a minha cara na mira de outro garoto, que, por certo, defenderia a todo custo a mesma causa: vencer ou sofrer eternamente as conseqüências de uma derrota. Olhei uma única vez nos olhos negros e confusos daquele garoto, depois parti pra dentro dele como se o mundo se apoiasse nas minhas costas, acertei um soco bem no meio da testa dele e, enquanto ele procurava a melhor maneira de se equilibrar, eu desferi em seqüência e de uma maneira tão violenta e rápida quatro socos que o atingiram no nariz, na boca, no estomago e finalmente no queixo, fazendo com que aquele pobre garoto caísse estatelado no chão como uma fruta podre. Então, os meninos do Capão ergueram-me em seus ombros como se erguem um troféu após a conquista de um campeonato, e, com a pipa azul em minhas mãos, fui descendo as ladeiras estreitas do bairro, na certeza de ter sobrevivido há mais uma batalha... Chegando à minha casa, minha mãe gritou o meu nome desesperada: “Miguel! O que foi que aconteceu filho? Que sangue é esse em suas mãos, olha a sua roupa filho! Todo sujo de terra e sangue...” Só então, me dei conta de que o sangue daquele garoto estava em minha roupa e em minhas mãos, como uma tatuagem feita a contragosto, marcando pra sempre a minha alma...
Ulisses de Abreu

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TELA de: CARAVAGGIO
O Milagre
Acordou cedo, pegou o revolver que estava escondido dentro do sapato debaixo da cama. Vestiu-se: camisa regata, bermuda colorida e chinelas havaianas azuis. Roberto era um jovem que gostava de aventuras, sempre saia com os amigos para farrear e se divertir sem se preocupar com nada. Naquele dia estavam com ele os seus três amigos inseparáveis, eram eles: Fernando Generoso, um cara estranho, que ria de dez em dez minutos, mas do que ele ria nem ele mesmo sabia explicar, Zacarias, divertido, rapaz simples, baixinho e simpático como aquele do programa “os trapalhões” do qual herdou o apelido e, por ultimo Celso, sujeito de mil e uma faces que ia do correto ao incorreto em questões de segundos se as circunstancias assim o interessassem. Roberto tinha dezessete anos e era um ano mais novo que os demais. Fumou seu primeiro baseado aos doze, e aos dezesseis tomava chá de cogumelo enquanto ouvia musica nos pontos mais altos da cidade, gostava tanto de curtir os efeitos alucinógenos dos cogumelos que muitas vezes comia-os aos pedaços mergulhando-os em leite moça para tirar o gosto de mofo do fungo; ele era uma espécie de cobaia humana da loucura, tomava de tudo, experimentava de tudo, mas, nunca injetou – em meu sangue não deixo injetar nem vitaminas – ele sempre dizia com um orgulho mórbido. Aquele quarteto era um barril de pólvora, se reuniam quase todos os finais de semana e feriado em busca de diversão, drogas e aventuras. Era dia doze de outubro, dia de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil. Escolheram o campo de aviação da cidade como paisagem para mais uma das suas festinhas movidas a álcool e muitas drogas. O lugar ficava quase sempre vazio, já que avião ali era ate difícil de dizer de quanto em quanto tempo aterrissava. Já com uma quantidade considerável de maconha e vodka na cabeça, Roberto sacou a arma e sem que os outros percebessem atirou em direção a uma arvore. Todos levantaram assustados, e ele riu como uma criança inocente e ao mesmo tempo covarde. Passado o susto a arma foi de mãos em mãos sendo manipulada; Ora um ora outro um tiro em alguma direção disparava. Algumas horas depois Roberto foi surpreendendo com a arma apontada para sua cabeça, era Zacarias, que com um olhar de bandido e palhaço lhe disse: _ vou te matar! Roberto sem se desesperar pediu para Zacarias que parasse com a brincadeira – ta duvidando eu vou te matar mesmo – disse Zacarias com a arma agora a alguns centímetros apenas da cabeça de Roberto que estava sentado na grama. Com um reflexo e uma agilidade que ate hoje nenhum daqueles jovens soube explicar, Roberto bateu com a mão direita no tambor do revolve no exato momento em que Zacarias puxava o gatilho. Com a mão cheia de pólvora Roberto procurava desesperado em seu corpo onde teria sido atingido pelo tiro. Enquanto isso, Zacarias caia desmaiado na grama como se o tiro tivesse saído pela culatra. Fernando e Celso olhavam espantados e ao mesmo tempo embasbacados como dois viajantes do tempo, com um olhar no que estava acontecendo e outro em um outro canto qualquer do universo... Roberto encontrou o buraco da bala no chão a uns dez centímetros de sua coxa direita e, só então suspirou aliviado, levantou-se e olhou para o céu enquanto passava desesperadamente as mãos pelos cabelos. Ele nunca tinha visto a morte assim tão de perto. Nem mesmo em seus delírios psicodélicos movidos a vinho tinto e cogumelos a morte havia se mostrado assim tão de perto. Zacarias aos poucos foi se recompondo e quando por fim visualizou a imagem de Roberto vivo, sorriu aliviado e ao mesmo tempo caiu em desespero... – eu ia te matar Roberto - Zacarias dizia entre soluços e lagrimas. – para mim a arma estava descarregada, eu mesmo a descarreguei há pouco tempo atrás, queria só te dar um susto e quase te mato sem a intenção de matar. Então uma nuvem pálida tomou conta daquele lugar, e o que era farra virou drama. A loucura passou subitamente como se tivessem tomado um antídoto. E então um a um foram entrando no carro e fizeram o caminho de volta sem trocarem uma única palavra ate suas casas. Alguns anos depois Roberto e Zacarias se reencontraram na cidade de São Paulo, não se viam já fazia oito anos. Zacarias abraçou Roberto como abraça o filho um pai, e mesmo tantos anos depois tremia e com a voz embargada a única coisa que conseguiu falar foi: - eu ia te matar Roberto eu não sabia que aquela arma estava carregada...
(baseado em fatos reais)
Ulisses de Abreu

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